Muito prazer: me chamo Brasil
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Como um nome trocado aos poucos, o imperialismo cultural nos convence a trocar de identidade — resistir é defender o próprio nome.
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Toda pessoa, ao nascer, recebe um nome. É um elemento simbólico da nossa identidade e, de certa forma, da nossa própria existência. Não existe quem não tenha nome. E por mais que ao longo da vida a pessoa venha a ter apelidos, o nome permanece.
Agora imagine que, repentinamente, sem qualquer explicação, passem a te chamar por um nome diferente do seu. É estranho para você, também para quem te conhece, e muito provavelmente, esse novo nome não teria a sua adesão. Por outro lado, se é feita uma boa propaganda com exaustiva repetição, forrada de gatilhos mentais e catarses, garantindo uma introdução gradual do novo nome em seu cotidiano, te convencendo que seu nome original não parece tão civilizado assim, se torna possível - e até compreensível - que você assuma uma nova identidade, muito mais quando a mudança vem com aspectos do seu primeiro nome, sem que pareça uma grande alteração. Se torna muito mais palatável mudar dessa forma.
É exatamente assim que age o imperialismo frente à cultura popular brasileira. Quando se nota, preferimos muito mais pistache do que amendoim, não sabemos quem é Anastácia mas é inconcebível não conhecer os maiores sucessos da Madonna, e quando uma gringa viraliza na internet porque se chocou com a qualidade incomparável de Machado de Assis é que fica nítido o prejuízo que temos sofrido com as nossas livrarias forradas de best-sellers que não mudam de enredo. Aos poucos somos convencidos de que o estrangeiro é sempre melhor que o de casa, permitimos a homogeneização da nossa rica diversidade cultural, somos impedidos de conhecer nossas próprias produções e, pior que isso, aderimos à visão de mundo de quem busca nos dominar.
Qualquer dúvida sobre como se dá essa dominação cultural se reduz drasticamente quando se observa o movimento do mercado cinematográfico, por exemplo. Na lista dos 20 maiores públicos do cinema em 2023 no Brasil, não existe sequer UM filme nacional. Todos eles eram de origem norte-americana, distribuídos majoritariamente 17 pela Warner e pela Disney. E é claro que vai aparecer quem diga que isso acontece porque o cinema do Tio Sam é melhor ou o público quem prefere, mas os números não mentem. A maioria dos filmes lançados e/ou exibidos no Brasil ainda são estrangeiros, 61% em 2023, e além disso, os filmes nacionais são muitos menos exibidos, tanto por quantidade de salas, quanto por tempo em cartaz - os lançamentos nacionais tiveram, em média, 15 dias a menos de exibição em relação aos estrangeiros. Os dados são do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, da Ancine. É difícil ter os mesmos dados com precisão das plataformas de streaming ainda, mas não existe qualquer indício de que seja um cenário muito diferente, pois mesmo com a brasileira Globo possuindo a Globoplay, a Netflix ainda é a plataforma mais assinada no país, seguida pelo Amazon Prime. Portanto, não faz sentido algum atribuir a culpa do baixo consumo à população, se o produto sequer vai à prateleira, e quando vai, fica apagado pela presença massiva das marcas do monopólio.
E mesmo que pareça um novo mercado por conta da internet e suas plataformas de streaming, os monopólios são praticamente os mesmos, à exemplo do mundo da música. As principais gravadoras do tempo das rádios também são as principais distribuidoras de músicas para as plataformas de streaming, tal como para as redes sociais. A CD Baby, por exemplo, distribuidora de música para mais de 150 plataformas no mundo, em especial Spotify, foi adquirida pela Downtown Music Holdings, que agora pertence ao Virgin Music Group, que, veja só, também é um braço da Universal Music Group. Aqui já podemos concordar que as dancinhas para o TikTok são, sobretudo, o jabá do nosso tempo.
Sabendo que é através da cultura que se formam, reproduzem e preservam valores, hábitos, crenças, conhecimentos acumulados ao longo da história, e que estes definem nosso ponto de vista e contribuem de maneira fundamental para as transformações sociais, é também de se preocupar e não se deve subestimar o poder dos valores propagados pela indústria cultural, nem mesmo a capacidade de influência sobre o comportamento e opinião das pessoas. No texto “A Estética da Barbárie”, Sérgio Rubens, um dos fundadores do Centro Popular de Cultura da UMES e patrono desta juventude, demonstra de maneira concisa como e por que interessa ao império propagar a barbárie como forma de justiça, mas também explica a importância dessa atenção à estética:
Estética é comunicação pelos sentimentos, ela não se dirige diretamente à razão, como um conceito ou um argumento. Ela lida com o imaginário, com símbolos, desejos. Porém, mesmo quando se proclama “apolítica”, o seu sentido sempre será o de produzir uma vivência emocional no espectador, que interfira em sua percepção da realidade, que o torne propenso a adotar ou rejeitar determinadas atitudes e ideias.
E dessa forma, se compreende que a intromissão do império na construção dos nossos valores é algo de fácil enraizamento, porque não requer grandes argumentos e explicações, mas bons formatos que capturem o público através de uma dor que já existe e requer solução. No mesmo texto, o Sérgio elenca exemplos ícones da indústria para demonstrar que o individualismo não chega ao espectador como uma ideologia, estudada, propagandeada e com adesão consciente, mas através de personagens que “representam” o esmagamento sentido pelo espectador e apresentam a revanche como resposta, onde a saída nunca é coletiva e o ódio que move as ações.
É algo a se perceber em meio ao nosso convívio com as redes sociais e seus algoritmos, onde é necessário entregar cada vez mais do mesmo conteúdo que se interage para garantir o máximo da sua atenção. A pessoa, cada vez mais, consome apenas aquilo que considera importante e verdadeiro para si, deixando de ter contato com o diferente ou contraditório, o que seria muito mais natural ao convívio humano. Aqui o individualismo deixa de ser propagado só em formatos e conteúdos, mas também no comportamento motivado pelo uso das redes, acelerando essas transformações no mesmo passo em que esses aplicativos se tornaram parte intrínseca de nossas vidas.
Segundo o Relatório Digital 2024, a população brasileira passa em média 9h15 por dia online, e na mesma pesquisa, se aponta que a dedicação para as redes sociais ficou em torno de 3h37 por dia, em média. WhatsApp, Instagram, Facebook, Youtube e TikTok, são os aplicativos mais utilizados, e este último, desde que se popularizou, transformou o padrão de consumo e veiculação de informação nas plataformas. Os vídeos curtos viraram o principal formato de consumo para a maioria - Facebook e Instagram têm os Reels e Stories, WhatsApp criou Canais e o Youtube investiu no Shorts. Nesse contexto, podemos dizer que não se trata mais apenas do QUE ou QUANTO é consumido, mas COMO é consumido. Para lucrar sempre mais, é preciso reter o usuário e portanto, tudo deve estar bem mastigado, são textos e vídeos curtos, palavras fáceis e ilustrações, tudo que chame a atenção, desperte a curiosidade, sempre polêmico ou meramente distrativo e de rápida assimilação, de modo que seja cada vez menos necessário pensar.
E tudo isso concentrado nas mãos de homens como Elon Musk, que ameaça diretamente a democracia de outros países, ou como Mark Zuckerberg, que vê na eleição de Trump uma oportunidade de saltar os lucros com a liberação de conteúdos nocivos e criminosos vestidos de “liberdade de expressão”. Importante destacar esta falsa relação que se criou entre moderação de conteúdo e censura dentro do posicionamento dos donos das big techs, para lembrar que não existe neutralidade, o conteúdo que eles não querem moderar certamente oferece alguma vantagem, seja ideológica ou financeira. E depois que já se naturalizou a chacina - termo também utilizado n’A Estética da Barbárie -, fica muito mais fácil garantir que “odiar negros” ou desejar que algum grupo específico seja exterminado seja apenas uma questão de “opinião”. Estamos diante de um mercado dominado por pessoas que se sentem cada vez menos compelidas a respeitar as instituições ou a soberania dos países, e lucrar enquanto destroem o imaginário popular e a identidade de povos do mundo todo.
É, portanto, imperativo e urgente negar a FORMA imposta, e fazer isso abraçando de peito aberto tudo de mais precioso que o nosso povo já produziu. Defender nosso nome diariamente para que a propaganda imperialista não nos afete a memória. Se o mercado entrega filmes e séries como quem entrega pão, continuaremos levando às pessoas o trabalho minucioso dos maiores cineastas do Brasil e do mundo. Não podemos aceitar que apenas 7% das cidades deste país conheçam uma sala de cinema ou que apenas 3,2% do público tenha assistido filmes no próprio idioma. Se nos entregam sempre os mesmos quinze segundos de refrões batidos, não vamos temer em apresentar para a juventude a irretocável poesia dos sambas, serestas, frevos e baiões. Não é possível permitir que em um país de tanta diversidade e sonoridade, só tenha a banda podre da música sertaneja entre as mais tocadas nas rádios e plataformas de streaming - segundo o relatório do Ecad de 2022, 8 das 10 músicas mais tocadas eram sertanejo, nenhum samba nas listas. Definitivamente, não vamos caber em tuítes e carrosseis, porque somos o país de Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Adélia Prado, Machado de Assis, Julia Lopes de Almeida, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Carolina de Jesus, Ariano Suassuna, Patativa do Assaré e tantos outros que escreveram de forma subjetiva e objetiva quem é o Brasil e os motivos de orgulho para carregar esse nome.
Haverá quem diga que “isso não é o que a maioria das pessoas quer ver e ouvir”, mas não existe escolha onde não há acesso, tal como não se luta por aquilo que não se acredita. Aqui, nós acreditamos no Brasil e vamos continuar conquistando a juventude para que acredite também, sem vender o próprio nome em troca da nossa soberania.
Tudo isso deve ser levado em conta por aqueles que desejam combater o império em todos os níveis, inclusive no plano estético, opondo à estética da barbárie uma outra, diametralmente oposta, baseada no amor, no trabalho, na luta, no compromisso com o coletivo, na percepção de que o imperialismo, a despeito dos males que ainda pode causar, é, crescentemente, um tigre podre de papel. (A Estética da Barbárie, Sérgio Rubens)

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