Por um Brasil brasileiro
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Cultura é identidade e resistência: contra o algoritmo que apaga memórias, a UNE deve reviver o legado do CPC e afirmar o Brasil profundo.
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A cultura é toda a gama de conhecimentos, crenças, hábitos e valores, acumulada por um povo. É o que define sua própria identidade e através dela se produz o pertencimento e a conexão inerentes à defesa da nação. Então é relevante lembrar que se desejamos uma educação emancipadora e capaz de desenvolver o Brasil, ela deve também defender a nossa identidade - o Brasil profundo, miscigenado, popular, trabalhador, criativo, - com políticas públicas que correspondam a essa necessidade.
Com o retorno do Ministério da Cultura, o Governo Lula retoma uma série de políticas públicas que são cruciais para a produção cultural brasileira, como a plataforma digital gratuita de filmes e séries nacionais prevista para o segundo semestre de 2025. É uma forma de difundir e proteger nossa cinematografia, que também acende o alerta para a necessidade de regulação do vídeo sob demanda pois da mesma forma que precisamos de cotas de tela para as salas de cinema, também é necessário estabelecer uma quantidade mínima de obras nacionais no que é ofertado pelas redes de streaming em nosso próprio país. Outras tantas medidas e investimentos que favorecem as mais diversas linguagens poderiam ser citadas.
Mas estamos na era do capitalismo decadente, dos velhos monopólios se renovando na internet e, especialmente, da inteligência artificial, e precisamos dizer que esta tarefa de proteger a construção coletiva do povo se torna ainda mais árdua e desafiadora porque o sistema agoniza bombardeando seu individualismo, uniformizando estéticas e apagando memórias. As redes sociais cumprem esse papel de forma ágil e desonesta, pintadas de democracia e liberdade de expressão. Fazem parecer que agora temos acesso a tudo, quando na verdade o algoritmo joga para o usuário 15s de uma mesma música, incessantemente. Os filmes e séries se reciclam cada vez mais rápido nos mesmos enredos para os streamings.
O discurso propagandeado é de ascensão individual, meritocracia, o verdadeiro “cada um por si, deus por todos”. O conteúdo reflete os valores do mercado e os formatos garantem que seja tudo digerido a toque de caixa. São textos e vídeos curtos, palavras fáceis e ilustrações, tudo que chame a atenção, desperte a curiosidade, sempre polêmico ou meramente distrativo e de rápida assimilação, de modo que seja cada vez menos necessário pensar e a retenção do usuário possa ser mais lucrativa.
Este cenário torna ainda mais imperativo que a União Nacional dos Estudantes reafirme o seu papel, atue conforme a sua capacidade de produzir cultura com e para a juventude, defenda a qualidade e o investimento em programas de cultura e extensão universitária, assuma a linha de frente deste trabalho ao proteger, produzir, fomentar e difundir a cultura nacional através das artes em meio à juventude. E que faça isso abraçando de peito aberto tudo de mais precioso que o nosso povo já produziu para que a propaganda imperialista não nos afete a memória. Se o mercado entrega filmes e séries como quem entrega pão, nós devemos levar às pessoas o trabalho minucioso dos maiores cineastas do Brasil e do mundo.
Não podemos aceitar que apenas 7% das cidades deste país conheçam uma sala de cinema ou que apenas 3,2% do público tenha assistido filmes no próprio idioma. Se nos entregam sempre os mesmos quinze segundos de refrões batidos, não vamos temer em apresentar para a juventude a irretocável poesia dos sambas, serestas, frevos e baiões.
Não é possível permitir que em um país de tanta diversidade e sonoridade, só exista a música sertaneja do agronegócio entre as mais tocadas nas rádios e plataformas de streaming - segundo o relatório do Ecad de 2022, 8 das 10 músicas mais tocadas eram sertanejo, nenhum samba nas listas. Definitivamente, não vamos caber em tuítes e carrosséis, porque somos o país de Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Adélia Prado, Machado de Assis, Julia Lopes de Almeida, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Carolina de Jesus, Ariano Suassuna, Patativa do Assaré e tantos outros que escreveram de forma subjetiva e objetiva quem é o Brasil e os motivos de orgulho para carregar esse nome.
Foi este mesmo papel que o CPC da UNE cumpriu antes de ter seu teatro queimado pelos militares do golpe de 64, com nomes da estatura de Vianinha, Ferreira Gullar, Cacá Diegues, Nara Leão, Carlos Lyra, Edu Lobo, Leon Hirszman, Geraldo Vandré, entre muitos outros.
A atuação da UNE naquele período colhe frutos até hoje justamente porque foi uma política de produção cultural “na unha”, agarrada com a cultura popular brasileira. Agora deve assumir esta mesma posição para que a juventude não seja totalmente engolida pelo estrangeiro sem conhecer seu próprio chão. Para que o Brasil não tenha dificuldade de ser e assumir exatamente quem se é: brasileiro!

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