É de esperança que se faz a garra de quem sobrevive na periferia. Mesmo com todas as dificuldades, existe fé no amanhã de quem está na correria, faça chuva ou faça sol.
De onde eu falo, Parelheiros, extremo sul de São Paulo, temos uma população muito jovem (47% do distrito tem 0 a 29 anos) porque sem condições dignas de vida também morremos cedo - a idade média ao morrer em Parelheiros é 64 anos, uma das menores da capital. Estes, dentre outros dados do Mapa da Desigualdade de 2025 (Rede Nossa São Paulo), evidenciam a deficiência e o abandono do poder público com os extremos da cidade em diversos aspectos, especialmente nos direitos mais básicos.
A minha história é alicerce para o futuro que acredito. Sou filha da Marlene, baiana que chegou na zona sul há mais de 30 anos e criou 7 filhos tirando o sustento do comércio. Uma cozinheira, agricultora e comerciante, que hoje está vice-presidente da Cooperativa Agroecológica dos Produtores Rurais e de Água Limpa da Região Sul de São Paulo. Com o restaurante dela sendo há muitos anos um dos lugares de referência do bairro, pude crescer acompanhando debates, encontros, coletivos, lideranças, que discutiam o território e a cidade.
Aprendi muito e quis fazer também. Em 2015, com pouco mais de 18 anos, ajudei a fundar o Sarauê, evento mensal que se tornou um ponto cultural na praça central de Parelheiros. No mesmo ano, me tornei diretora da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo, onde debati o acesso à cultura em escolas de toda a cidade e pude realizar exposições, aulas, mostras de cinema, peças de teatro e muito mais, junto ao Centro Popular de Cultura da UMES.
Em 2024, passei a presidir a Federação das Mulheres Paulistas, uma entidade histórica que desde 1981 luta por direitos e uma vida mais digna para mulheres e crianças, o que me aproximou ainda mais da realidade do lugar onde vivo. A periferia é repleta de mulheres que batalham demais pela sobrevivência e dignidade de suas famílias, e jovens que, mesmo sem estrutura, encontram caminhos para ampliar as próprias perspectivas.
Há anos vejo surgir em Parelheiros respostas para centenas de problemas que enfrentamos em todo o estado. Acredito muito na capacidade do desenvolvimento local, é preciso pensar na região: ter emprego, transporte, saúde, cultura e lazer no lugar onde se vive.
Ainda que eu fale principalmente deste canto da cidade, é importante perceber que a política econômica do país nos afeta demais. O custo da cesta básica em São Paulo atingiu uma média de R$ 965,47 em junho de 2026, segundo o DIEESE. Este é um valor, que subtraído o que é descontado da Previdência, compromete pelo menos 64% do salário mínimo. A carestia que estamos vivendo ainda é fruto da política que Bolsonaro aplicou em seu governo quando a cesta básica em São Paulo chegou a representar 99% do salário mínimo, mas não diminui a responsabilidade do Governo Lula atender essa necessidade com uma política econômica que priorize o povo, reduzindo a taxa básica de juros e fortalecendo a Companhia Nacional de Abastecimento, com um estoque regulador capaz de tabelar o preço do alimento.
Me preocupa que isso afete primeiro as mulheres, que compõem a maioria nas filas de doações de cestas básicas. De todos os lares que convivem com a insegurança alimentar 63% são chefiados por mulheres. No final de 2026 a taxa de desemprego das mulheres ainda é 43,1% maior que a dos homens. No extremo sul de São Paulo, temos as maiores taxas de gravidez na adolescência da capital, e sendo esse um dos principais motivos de evasão escolar, é assim que se formam os ciclos de manutenção da pobreza. Este é um cenário de grande vulnerabilidade que dá lugar a coisas absurdas, como já ter sido o quinto bairro da cidade com a maior taxa de feminicídio, e onde, até hoje, a delegacia da mulher mais próxima fica a pelo menos duas conduções da maioria de nós.
A situação das mulheres em São Paulo fica pior quando consideramos os desmandos de Ricardo Nunes e Tarcísio de Freitas. No estado, o governo que privatizou a Sabesp, aumentou a conta de água, aprofundou os problemas do serviço de abastecimento e afeta a renda e o cotidiano de milhares de lares, é também o governo que desmonta as políticas de combate à violência contra a mulher: Tarcísio cortou 54% da Secretaria de Políticas para a Mulher em 2026 mesmo com altos índices de feminicídio no estado de São Paulo - houve um aumento considerável em 2025, com 166 casos contabilizados e esse foi o maior número de casos desde que passou a valer a lei que reconhece o feminicídio.
Na capital, a prefeitura de Nunes continua a política do sucateamento das creches com um sistema de convênios que o Tribunal de Contas do Município comprovou em diversas auditorias piorar a qualidade das creches conveniadas em relação às unidades diretas, aquelas geridas pela própria prefeitura. Uma realidade que também afeta diretamente as mães que dependem da oferta de vagas em creches para trabalhar ou estudar.
Desde que comecei a me engajar e levantar bandeiras, ouço que nós jovens somos o futuro. Mas o futuro que eu acredito precisa ser feito agora, é imediato, a juventude não espera e a fome muito menos. Precisamos de respostas emergenciais para os problemas atuais, mas também precisamos de políticas estáveis de acesso à educação, cultura e emprego.
Sob este cenário e com esta disposição que me coloco Pré-Candidata a Deputada Estadual de São Paulo. A periferia merece muito mais do que tem sido ofertado e somos nós que podemos entregar! Vem comigo?
Keila Pereira

